História do Tarot de Marselha: das cortes italianas ao tarô de hoje, com os fatos documentados
Origens italianas no século XV, fabricantes franceses, Nicolas Conver em 1760, ocultistas do século XIX, Paul Marteau: a história real do Tarot de Marselha.
Índice(7 seções)
O Tarot de Marselha tem raízes italianas: ele descende dos tarôs criados nas cortes do norte da Itália no século XV, como um jogo de cartas. O modelo que chamamos hoje “de Marselha” foi fabricado na França nos séculos XVII e XVIII, em Paris, Lyon e sobretudo Marselha, por mestres fabricantes de cartas como Jean Noblet, Jean Dodal e Nicolas Conver, cujo baralho de 1760 se tornou referência. O uso divinatório só apareceu no fim do século XVIII.
O nome “Tarot de Marselha” é ainda mais tardio: difundiu-se no século XIX e se impôs no século XX, em especial com a edição de Paul Marteau (1930) e o seu livro de 1949. Entre esses dois momentos, ocultistas franceses como Court de Gébelin, Etteilla, Éliphas Lévi e Papus deram ao tarô uma camada simbólica e esotérica bem distante da sua origem. Abaixo, essa história em ordem, com o que se sabe, o que se supõe e os mitos que vale deixar de lado.
As origens italianas: um jogo de corte no século XV
Os primeiros tarôs conhecidos surgem no norte da Itália por volta de meados do século XV, nas cortes de Milão, Ferrara e Bolonha. Eram chamados de carte da trionfi, “cartas de triunfos”: um baralho comum de quatro naipes ao qual se acrescentava uma série de cartas com figuras alegóricas, os triunfos, que funcionavam como trunfos no jogo. A palavra tarocchi só aparece no início do século XVI.
Os baralhos mais célebres desse período são os pintados à mão para a família Visconti e depois para os Sforza, senhores de Milão. São objetos de luxo, com fundo dourado, de que restam exemplares incompletos espalhados por museus e bibliotecas. Neles já se reconhecem várias figuras que conhecemos: o Imperador, a Roda da Fortuna, a Morte, o Mundo.
O ponto essencial é este: o tarô nasceu como jogo, com regras de vaza parecidas com as de outros jogos de cartas. As figuras dos triunfos vinham do repertório visual da época (virtudes, planetas, cortejos triunfais, temas religiosos) e eram compreensíveis para qualquer pessoa culta do Renascimento italiano. Os documentos do período mostram apenas o uso como jogo.
A ordem dos triunfos também variava de uma região para outra. Os historiadores do jogo, a começar por Michael Dummett, identificaram variações regionais na sequência das cartas: certas figuras mudavam de lugar conforme a cidade, e alguns baralhos identificavam as cartas apenas pela figura. A numeração estável que conhecemos no Tarot de Marselha, com A Justiça em VIII e A Força em XI, é o resultado de uma dessas tradições, que se fixou com a fabricação francesa.
O que se sabe e o que se supõe
Antes de seguir, vale separar os fatos das hipóteses, porque a história do tarô está cheia de afirmações confiantes que os arquivos deixam por provar.
O que se sabe: que existiam baralhos com triunfos nas cortes do norte da Itália em meados do século XV; que eram usados para jogar; que o jogo se difundiu na França e na Suíça; que fabricantes franceses produziram o modelo dito “de Marselha” nos séculos XVII e XVIII; que o uso divinatório e as leituras esotéricas aparecem no fim do século XVIII.
O que se supõe: quem concebeu exatamente a série dos triunfos, e com que intenção precisa. Muitos estudiosos propõem relações com os cortejos triunfais do Renascimento, com a poesia de Petrarca (os Trionfi), com a iconografia das virtudes e dos planetas. São hipóteses razoáveis, apoiadas no contexto da época; o documento que diria “eis o sentido destas cartas” continua por encontrar.
O que é lenda: a origem egípcia, cigana ou cabalística, de que falamos mais adiante.
Essa distinção aumenta o interesse das cartas. Ela permite olhar as imagens pelo que elas mostram, com a liberdade de quem lê o que vê, longe da pressão de um “sentido secreto” que seria preciso decifrar.
A chegada à França e os fabricantes de cartas
O jogo se espalhou pela Europa, especialmente para a França e a Suíça, a partir do fim do século XV e início do XVI, em parte ligado às campanhas militares francesas na Itália, que levaram à ocupação de Milão em 1499. Na França, o tarô passou a ser fabricado por mestres fabricantes de cartas (os maîtres cartiers), profissionais organizados em corporações, que imprimiam as cartas por xilogravura e as coloriam com moldes.
É nesse contexto que se fixa o modelo que hoje chamamos “de Marselha”. Algumas balizas conhecidas:
- Jean Noblet, Paris, por volta de 1650: um dos baralhos mais antigos conservados desse tipo.
- Jean Dodal, Lyon, início do século XVIII.
- Nicolas Conver, Marselha, 1760: o baralho que serviu de base para muitas reedições dos séculos XIX e XX.
Marselha foi um centro importante dessa produção, assim como Lyon e Paris, entre outras cidades. Cada baralho tinha a sua personalidade: cada fabricante gravava as suas matrizes, e os detalhes variavam. Mas a estrutura, a ordem das cartas e as imagens principais eram estáveis o bastante para se falar de um modelo comum: 22 triunfos (os futuros arcanos maiores) e 56 cartas de naipes (paus, copas, espadas e ouros), com os menores numerados representados de forma geométrica, apenas com os símbolos do naipe dispostos em padrões.
O nome “Marselha”: uma etiqueta do século XIX
Os fabricantes dos séculos XVII e XVIII vendiam tarôs, simplesmente, com o nome genérico do jogo. A expressão “Tarot de Marseille” como nome de um modelo só aparece no século XIX, entre estudiosos e colecionadores que precisavam distinguir os diferentes padrões regionais de cartas.
Ela se torna realmente popular no século XX. Em 1930, a casa Grimaud publica um baralho intitulado Ancien Tarot de Marseille, organizado por Paul Marteau, baseado no padrão de tipo Conver e com cores padronizadas. Em 1949, Marteau publica o livro Le Tarot de Marseille, que propõe uma leitura detalhada das cores, dos números e dos símbolos. A partir daí, a expressão passa a designar, para o grande público, o tarô tradicional francês.
Por isso, quando falamos de “Tarot de Marselha”, falamos de um modelo com uma longa história de fabricação, produzido em várias cidades ao longo de gerações.
O renascimento ocultista: Court de Gébelin, Etteilla, Papus
Durante cerca de três séculos, o tarô foi um jogo. A virada acontece no fim do século XVIII.
Antoine Court de Gébelin, erudito protestante, publica em 1781 o tomo VIII do seu Le Monde primitif, uma vasta obra sobre a suposta sabedoria das civilizações antigas. Ali ele afirma que o tarô seria um livro sagrado egípcio, o “Livro de Thoth”, escondido num jogo para sobreviver aos séculos. No mesmo volume, um ensaio do conde de Mellet propõe uma leitura divinatória das cartas. Os dois se apoiam apenas em conjecturas: é uma construção especulativa, coerente com o gosto da época pelo Egito misterioso.
Etteilla (pseudônimo de Jean-Baptiste Alliette) transforma essa ideia em prática. Nos anos 1780, ele publica um método de cartomancia com o tarô e, pouco depois, cria um baralho próprio para a adivinhação, com cartas renomeadas e reordenadas. É também ele quem atribui sentidos específicos às cartas invertidas, um costume que discutimos no artigo sobre cartas invertidas no Tarot de Marselha.
No século XIX, a camada esotérica se aprofunda. Éliphas Lévi, em Dogme et rituel de la haute magie (1854-1856), associa os 22 arcanos maiores às 22 letras do alfabeto hebraico e à Cabala. Papus (Gérard Encausse) publica em 1889 Le Tarot des Bohémiens, que sistematiza essas correspondências. No mesmo ano, Oswald Wirth desenha, sob a orientação de Stanislas de Guaita, um tarô de 22 arcanos adaptado a essas leituras.
Esse movimento francês influenciou diretamente a Ordem Hermética da Aurora Dourada, na Inglaterra, de onde sairia em 1909 o Rider-Waite-Smith. Comparamos as duas tradições em Tarot de Marselha ou Rider-Waite.
Mitos a deixar de lado
A história real do tarô é rica o bastante para dispensar as lendas. Algumas continuam circulando e merecem ser corrigidas.
“O tarô vem do Egito antigo.” É a ideia de Court de Gébelin, formulada em 1781, quando os hieróglifos ainda guardavam o seu segredo. Quando Champollion os decifrou, em 1822, os textos egípcios, enfim legíveis, mantiveram essa hipótese no campo da imaginação. Todos os documentos conhecidos apontam para a Itália do século XV.
“O tarô foi trazido pelos ciganos.” Essa versão, popular no século XIX (o título de Papus, Le Tarot des Bohémiens, ecoa essa crença), também pertence à lenda, e os arquivos mostram outro percurso: as cartas de jogo já circulavam na Europa antes do tarô, e o tarô aparece nas cortes italianas, entre aristocratas e artistas de corte.
“Os arcanos codificam a Cabala desde a origem.” As correspondências entre arcanos e letras hebraicas são uma construção do século XIX, sobretudo de Éliphas Lévi. Elas interessam como tradição esotérica posterior, surgida uns quatro séculos depois da criação das cartas.
“Existe um Tarot de Marselha original e puro.” O modelo sempre existiu no plural. Houve muitos fabricantes, com variações de traço, de cor e de detalhe. As versões “restauradas” de hoje são reconstruções feitas a partir de baralhos antigos, com escolhas editoriais.
Para quem quer ir mais fundo, os trabalhos de referência são os de Michael Dummett, filósofo de Oxford e historiador dos jogos de cartas, em especial The Game of Tarot (1980) e A Wicked Pack of Cards (1996), escrito com Ronald Decker e Thierry Depaulis. Em francês, Tarot, jeu et magie (1984), de Thierry Depaulis, é uma síntese clara.
O Tarot de Marselha hoje
Hoje, o Tarot de Marselha convive com vários usos, que se completam.
Como jogo de cartas, o tarô continua vivo na França, com clubes e competições, embora jogado em geral com baralhos de outro padrão.
Como objeto de patrimônio, ele interessa a museus, bibliotecas e colecionadores. Editores reproduzem baralhos históricos, e houve várias “restaurações” no fim do século XX, como a publicada em 1997 por Alejandro Jodorowsky e Philippe Camoin.
Como ferramenta de reflexão, ele é usado por muitas pessoas para pensar uma situação, uma escolha, uma relação. É a abordagem que seguimos no Tarot Universel: lemos o tarô como um espelho que ajuda a pensar, uma ferramenta para olhar a própria situação com mais clareza. As imagens de Marselha, simples e fortes, prestam-se bem a isso: um olhar, um gesto, uma cor que se repete.
Conhecer essa história ajuda a ler melhor. Quando você olha O Mago diante da sua mesa ou A Roda da Fortuna girando, está diante de imagens com mais de quinhentos anos, que passaram por jogadores, artesãos, ocultistas e leitores. Elas guardam algo mais interessante do que qualquer segredo egípcio: séculos de olhares humanos sobre as mesmas figuras.
Para conhecer cada uma delas, percorra as fichas das cartas do Tarot de Marselha, ou faça uma tiragem e veja o que essas imagens antigas têm a dizer sobre a sua pergunta de hoje.
Perguntas frequentes
O tarô vem do Egito antigo?
Não. A origem egípcia é uma lenda. Ela foi lançada em 1781 por Antoine Court de Gébelin, numa época em que os hieróglifos ainda esperavam ser decifrados, e repousa apenas na especulação. Os registros históricos mostram que o tarô surgiu no norte da Itália, no século XV, como um jogo de cartas das cortes, e só bem depois foi associado ao ocultismo.
Por que se chama Tarot de Marselha?
Porque Marselha foi um dos grandes centros de fabricação de cartas na França nos séculos XVII e XVIII, e vários baralhos conhecidos desse modelo, como o de Nicolas Conver (1760), foram feitos ali. Mas o modelo também era produzido em Paris, Lyon e outras cidades. A expressão só se difundiu no século XIX e se impôs no século XX.
Qual é o Tarot de Marselha mais antigo?
Entre os baralhos conservados do tipo de Marselha, o de Jean Noblet, feito em Paris por volta de 1650, está entre os mais antigos. O de Jean Dodal, em Lyon, data do início do século XVIII, e o de Nicolas Conver, em Marselha, de 1760. O de Conver serviu de referência para muitas edições posteriores.
Desde quando o tarô é usado para adivinhação?
O uso divinatório se difundiu a partir do fim do século XVIII, sobretudo com Etteilla, que publicou nos anos 1780 um método de leitura com o tarô e criou um baralho próprio. Antes disso, durante cerca de três séculos, o tarô era essencialmente um jogo de cartas, e continua sendo jogado como tal na França.
Que livros ler sobre a história do tarô?
Os trabalhos de referência são os do filósofo britânico Michael Dummett, em especial The Game of Tarot (1980) e A Wicked Pack of Cards (1996), escrito com Ronald Decker e Thierry Depaulis. Em francês, Tarot, jeu et magie (1984), de Thierry Depaulis, acompanhou uma exposição da Biblioteca Nacional da França.
Fontes e leituras
- Michael Dummett, The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City (1980)
- Ronald Decker, Thierry Depaulis, Michael Dummett, A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot (1996)
- Thierry Depaulis, Tarot, jeu et magie (Bibliothèque nationale, 1984)
- Antoine Court de Gébelin, Le Monde primitif, tomo VIII (1781)
- Paul Marteau, Le Tarot de Marseille (1949)
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